Os juízos sintéticos a priori como fundamento do conhecimento

Daniel Junio Gonçalves da Silva

Immanuel Kant (1724-1804) pode ser considerado um divisor de águas na história da filosofia. Há quem afirme que se pode fazer uma filosofia contra Kant ou a favor de Kant; mas nunca sem Kant. De fato Kant é dos maiores filósofos da modernidade. Seu pensamento propôs uma revolução tão grande e significativa que ele próprio o comparou a revolução criada por Copérnico no campo da astronomia; destarte surgiu a expressão “Revolução copernicana de Kant”; referindo-se à revolução que Kant propôs com relação ao tema do conhecimento.

O presente artigo tem como base a obra “Crítica da Razão Pura”. É nesta obra que Kant vai tratar do problema do conhecimento, do valor dos conhecimentos e é aqui que poderemos constatar a revolução copernicana realizada por Kant. Nosso objetivo aqui é mostrar como os juízos são necessários no processo do conhecimento. Porém antes de nos atermos aos juízos analisaremos alguns aspectos do processo de conhecimento em Kant que nos ajudarão a distinguir os juízos.

1 O que é conhecer?

Kant inicia a obra “Crítica da Razão Pura” realizando uma distinção entre conhecimento puro e conhecimento empírico, e coloca a experiência como fonte ou princípio de todo o conhecimento humano. Analisando então essa afirmação podemos pensar que Kant por colocar a experiência como princípio do conhecimento é um filósofo empirista. No entanto, aprofundando um pouco mais na “Crítica da Razão Pura” veremos que não se trata de empirismo, mas sim de um criticismo. “Segundo o tempo, portanto, nenhum conhecimento em nós precede a experiência, e todo o conhecimento começa com ela”. (KANT, 1980 p. 23).

Porém não significa que todo conhecimento se origine justa e unicamente da experiência. Vemos desenvolver na obra um confronto. De um lado estão os conhecimentos puros e de outro os conhecimentos empíricos. “Tais conhecimentos denominam-se a priori e distinguem-se dos empíricos, que possuem suas fontes a posteriori, ou seja, na experiência”. (KANT, 1980 p.23). Para compreendermos o tema dos juízos é necessário que compreendamos a base da “Crítica da Razão Pura”. Quando Kant distingue dois tipos de conhecimento, que a princípio se denominam puro e empírico, ele está dizendo que no processo do conhecimento temos um conhecimento que é independente da experiência e que está ligado à abstração; esse conhecimento denominamos puro, destarte este possui suas fontes a priori. Em contrapartida, trata de um outro conhecimento que possui suas fontes a posteriori, ou seja, na experiência; este denominamos empírico.

Feita esta distinção, podemos chegar à conclusão de que os conhecimentos a priori são aqueles que independem totalmente da experiência e os a posteriori são aqueles que se dão por meio da experiência. No entanto, encontramos nos conhecimentos a priori uma problemática: as proposições só podem ser consideradas puras quando nelas não é constatado nada de base na experiência. Para esclarecer esta situação, vejamos o que Kant exemplificou: “Assim, por exemplo, a proposição: cada mudança tem sua causa, é uma proposição a posteriori, só que não pura, pois mudança é um conceito que só pode ser tirado da experiência”. (KANT, 1980 p. 24). Sobre a experiência ele esclarece:

A experiência jamais dá aos seus juízos universalidade verdadeira ou rigorosa, mas somente suposta e comparativa (por indução), de maneira que temos propriamente que dizer: tanto quanto percebemos até agora, não se encontra nenhuma exceção como possível, então não é derivado da experiência, mas vale absolutamente a priori. (KANT, 1980 p. 24).

Antes de tratar mais especificamente sobre o tema dos juízos, Kant já prenuncia que no conhecimento humano existem juízos que ele disse serem necessários e universais, logo são puros a priori. Um exemplo claro disso são as proposições matemáticas. Quando digo que (2+2=4) não preciso passar pelo dado da experiência para poder chegar a tal conclusão. Os conhecimentos a priori, puros, são indispensáveis, eles se fazem presentes em nossa faculdade de conhecer. “quando suprimirdes do vosso conceito empírico de um objeto corpóreo ou incorpóreo todas as propriedades ensinadas pela experiência, não podereis tirar-lhe aquela pela qual o pensais como substancia ou como aderente a uma substância” (KANT, 1980 p. 25).

2 Os juízos analíticos e sintéticos

Na “Crítica da Razão Pura”, Kant vai analisar o valor dos conhecimentos puramente racionais, através de sua revolução copernicana vai colocar em questão não mais o objeto do conhecimento, mas sim como se dá o processo humano de conhecimento. Nesta obra Kant propõe uma filosofia transcendental. Com a revolução de Kant não mais o objeto é o centro do conhecimento, mas sim o sujeito cognoscente. Destarte, para trilhar tal caminho parte da distinção entre: juízos analíticos e sintéticos. “Juízos analíticos (os afirmativos) são, portanto, aqueles em que a conexão do predicado com o sujeito for pensada por identidade; aqueles, porém, em que essa conexão for pensada sem identidade, devem denominar-se juízos sintéticos” (KANT, 1980 p. 27).

Kant é um pensador metódico, de forma que podemos afirmar: os juízos analíticos independem da experiência; se independem da experiência podemos afirmar que são então a priori; se são a priori não podem ser conhecidos, ou não geram conhecimento. Foi por isso que Kant também os denominou como “juízos de elucidação”, ou seja, esclarecem ou tornam claro tal conhecimento, mas não geram. Por esta razão é que neste juízo o predicado já está contido no sujeito.

Em contrário, os juízos sintéticos dependem da experiência; se dependem da experiência, logo são a posteriori. Ao contrário dos juízos analíticos, estes ampliam nosso conhecimento, produzem conhecimento, por isso é que Kant também os denominou como “juízos de ampliação”, porém estes não são universais, pois derivam da experiência. Depois desta primeira distinção nos deparamos com um problema: de um lado estão os juízos analíticos que não podem ser conhecidos; de outro lado estão os juízos sintéticos que podem ser conhecidos mas não são universais. Sobre qual juízo se fundamenta a ciência do conhecimento? Qual saída para essa difícil questão?

Sobre tais princípios sintéticos, isto é, princípios de ampliação, repousa todo o objeto ultimo do nosso conhecimento especulativo a priori; os princípios analíticos são, na verdade, altamente importantes e necessários, mas só para chegar àquela clareza dos conceitos exigida para uma síntese segura e vasta ao invés de uma aquisição realmente nova. (KANT, 1980, p. 28).

A saída apresentada por Kant é notável. Segundo ele, o objeto do nosso conhecimento especulativo repousa sobre os princípios sintéticos. Porém, ressalta ele que estes princípios sintéticos devem ser a priori. “A ciência se baseia em um terceiro tipo de juízo, ou seja, no tipo de juízo que, a um só tempo, une a aprioridade, ou seja, a universalidade e a necessidade, com a fecundidade, e portanto a ‘sinteticidade’” (REALE, 2005, p. 357). Destarte, vemos então a necessidade de se formular um juízo que fundamente a ciência e o conhecimento, porém que seja possível de ser conhecido e universalizado. Ora esse juízo será então o juízo sintético a priori. Sobre este é que deve se fundamentar o conhecimento humano.

3 Considerações finais

Diante do dilema criado pelos juízos analíticos e sintéticos, Kant apresenta um importante caminho para fundamentar o conhecimento humano: os juízos sintéticos a priori. Aos poucos durante o desenrolar da “Crítica da Razão Pura” Kant vai então realizando uma grande mudança no campo da teoria do conhecimento. A distinção dos juízos analíticos e sintéticos e o apontamento dos juízos sintéticos a priori como fundamento do conhecimento apresentados no início da obra abrem caminho para a grande revolução copernicana de Kant e para uma análise dos conhecimentos, ou melhor, do modo como o homem conhece.

Referências

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Valério Rohden e Baldur Moosburger. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Os Pensadores).

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: de Spinoza a Kant, v. 4. Trad. Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2005.

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Um Comentário

  1. Haylton Gomes

    Entender um filósofo do calibre de Emmanuel Kant não é tarefa fácil. Para piorar a situação, não se encontra artigos eficazes na internet. Este texto do Daniel Silva está de parabéns pois começou a me aparecer a luz no fim do túnel, me fazendo pensar que entender Kant não é uma coisa impossível, basta encontrar o artigo certo.

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