Paixão, ação do corpo sobre a alma: uma abordagem cartesiana

Harley Carlos de Carvalho Lima

 

Introdução

Em sua obra Paixões da alma, René Descartes trata de um dualismo paradoxal, a saber: alma e corpo. E é neste contexto dualístico que o artigo vem trabalhar: paixão, uma ação do corpo sobre a alma. Mas para isso, será necessário fazer uma distinção entre as funções e ações da alma, e as respectivas funções e ações do corpo.

Para bem entendermos o contexto do dualismo cartesiano, devemos levar em conta que no pensamento de Descartes o único sujeito que interfere, ou que age contrário à alma, é o corpo. Por isso a forma mais clara de termos o conhecimento das paixões é fazer a separação destes dois elementos e examiná-los para saber também a qual dos dois devemos atribuir as funções existentes em nós. Visto que Descartes é considerado um pensador dualista, a distinção corpo e alma é real em seu pensamento, pois as duas substâncias podem existir sem depender uma da outra, contudo no homem elas estão necessariamente interligadas. Outra coisa que se deve acentuar é a definição de paixão, segundo Descartes

Parece-me que podemos em geral defini-las por percepções, ou sentimentos, ou emoções da alma, que referimos particularmente a ela, e que são causadas, mantidas e fortalecidas por algum movimento dos espíritos. (DESCARTES, 1983, p. 227).

Nisso é bem evidente que as paixões se manifestam nos dois paradoxos “corpo e alma”. Um está interligado ao outro, e é fácil perceber no que afirma Marcos e Andrade (2011), que na filosofia dualística, as paixões são os sentimentos e emoções experimentados pela alma e que são gerados por um movimento do corpo. Sem ignorar que o que estimula a alma a ambicionar as coisas para as quais ela dispõe ao corpo, são considerados efeitos das paixões.

 1 Alma e corpo, e suas respectivas funções e ações  

No pensamento cartesiano as funções do corpo estão na disposição dos órgãos, da matéria. Cada órgão tem a sua função. O calor e o movimento do corpo procedem do próprio corpo, visto que aqueles movimentos não dependem da alma, nem do movimento da alma, que é o pensamento. “… devemos crer que todo o calor e todos os movimentos em nós existentes, na medida em que não dependem do pensamento, pertencem apenas ao corpo” (DESCARTES, 1983, p. 218). Outro ponto importante para observação é que a res extensa, para Descartes, não compreende somente  nosso corpo (humano), mas sim  toda a realidade exterior, toda matéria.

Além disso, também sabemos que este mundo, ou a matéria extensa de que o universo é composto, não tem limites, porque, por mais longe que levássemos a nossa imaginação, mesmo assim poderíamos imaginar outros espaços indefinidamente extensos, e não só os imaginamos como os concebemos tão reais quanto imaginamos. Por isso, eles contêm um corpo indefinidamente extenso, pois a ideia de extensão que concebemos, seja em que espaço for, é a verdadeira ideia que devemos ter de corpo. (DESCARTES 2005, p. 68).

Para Descartes (1983), enquanto estamos com vida, ou o nosso corpo está em constante movimento, existe presente em nós uma ininterrupta vivacidade que está em nosso coração, que é uma espécie de fogo aí alimentado pelo sangue das veias, e que esse fogo é o princípio de nossas partes corporais.  Outro termo que Descartes usa para a compreensão do movimento dos membros do corpo é o de “espíritos animais”, os quais o filósofo afirma serem elementos físicos. “Na Fisiologia de Descartes, desempenham o papel hoje atribuído aos impulsos neuro- elétricos.” (COTTINGHAM, 1995, p. 60). São estes “espíritos”, ou corpos extremamente pequenos que transmitem as informações ao sistema nervoso.

Já a alma no cartesianismo é considerada como uma coisa pensante (res cogitans). Por isso, podemos considerar que para a alma não se pode atribuir nada a mais que não seja o pensamento, que por sua vez pode ser dividido em duas partes, a saber: as nossas vontades e as percepções.

As vontades, ou volições, dentro da filosofia cartesiana podem ser caracterizadas por aquelas ações da alma que têm por fim, que culminam, que agem e que terminam a sua ação na própria alma. Uma demonstração dessa ação é o sentimento de amor/afeto ou outro sentimento que não aplicamos a algo material. Diferentemente por outro lado, estão as ações que têm por fim o corpo, exemplo disto é quando o nosso pensamento ou nossa vontade deseja fazer um exercício físico, daí aplicamos nossa vontade ao corpo.

As percepções ou conhecimento existente, são também divididas em duas espécies, em uma margem está a alma e na outra o corpo. Do lado da percepção que tem como ponto culminante a alma, Descartes coloca como referencial as percepções de nossas vontades ou imaginação. “… tais são os sentimentos de alegria, de cólera e outros semelhantes” (DESCARTES, 1983, p.226).  E por outro lado a que tem o corpo como ação, são as que relacionamos aos apetites naturais (fome, sede…).

Para Descartes, a alma está ligada ao corpo, ela está no todo do corpo. Ao mesmo tempo podemos observar que no pensamento cartesiano há uma independência, uma dicotomia entre as duas substâncias.

A junção corpo e alma, segundo o filosofo, se dá por uma parte do cérebro chamada glândula pineal ou conarium. Esta glândula é para Descartes a principal sede da alma. E por ser esta glândula o único lugar no cérebro não constituído de duas partes é que Descartes coloca a mesma como sede da alma. “… embora a alma esteja unida a todo o corpo, não obstante há nele alguma parte em que ela exerce suas funções mais particularmente do que em todas as outras.” (DESCARTES, 1983, p 228).

Portanto, podemos concluir que para Descartes a ação passional depende da junção e interação do paradoxo “corpo e alma”, e é certo afirmar que na concepção cartesiana há uma separação das substâncias “pensamento e matéria”, mas ao mesmo tempo existe uma junção entre as mesmas. Para Descartes, as paixões são percepções, volições causadas pelo corpo e sentidas na alma, e que para termos o conhecimento da mesma, cumpre-nos fazer a distinção entre as funções existentes, entre as substâncias alma e corpo.

Referências

COTTINGHAN, John. As Paixões da Alma. Tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. 154 p. (Os Pensadores).

______. Dicionário Descartes. Tradução de Helena Martins. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. 171 p.

DESCARTES, René. Princípios da filosofia. São Paulo: Rideel, 2005. 106 p. (Biblioteca Clássica).

MARCOS, Rosemar; ANDRADE, Thiago. As paixões humanas na perspectiva cartesiana e pascaliana. Pensamento Extemporâneo, Mariana, nov. 2011. Disponível em: http://pensamentoextemporaneo.wordpress.com/2011/11/12/as-paixoes-humanas-na-perspectiva-cartesiana-e-pasacaliana/. Acesso em: 29 fev. 2012.

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