O niilismo como dissolução dos valores supremos

Juliano Aparecido Pinto


Pensar a questão do niilismo é algo indissociável do pensamento contemporâneo, uma vez que vimos a dissolução de todos os valores absolutos, os quais direcionavam a reflexão filosófica e a vida do homem antigo-medieval, contando também alguns séculos do período Moderno[1].

Ao perder os referenciais tradicionais aos quais pudesse se agarrar, o homem contemporâneo se percebe perdido, ou seja, desacreditado quanto a seus valores e ideais. A isto afirma Franco Volp: “É de incerteza e precariedade a situação do homem contemporâneo. Lembra a de um andarilho que há muito caminha numa área congelada e, de repente, com o degelo, se vê surpreendido pelo chão que começa a se partir em mil pedaços. Rompidos a estabilidade dos valores e os conceitos tradicionais torna-se difícil prosseguir o caminho”[2].

A esta situação na qual se encontra o homem do século XIX, nós chamamos de niilismo. Este termo de origem latina (nihil, nada), tem sido objeto de vastas reflexões no âmbito da política, literatura, filosofia, etc. No entanto, nos interessa neste artigo, apenas a perspectiva filosófica. Podemos dizer que é pelas razões apresentadas no primeiro e segundo parágrafos, que este fenômeno, niilismo, ocupa um lugar de destaque na reflexão filosófica contemporânea.

Neste sentido são várias as questões que nos instigam diante da presença daquele que é considerado o mais sinistro de todos os hóspedes[3]. O que significa o niilismo? Qual a sua origem? Acaso ele surgiu subitamente na contemporaneidade sem que pudéssemos evitá-lo? E já que ele se faz presente o que podemos esperar? São estas questões que irão nos direcionar para o desenvolvimento deste artigo. Para tanto, sabendo da amplitude das reflexões feitas a respeito deste fenômeno, nós nos limitaremos à pensá-lo a partir do filósofo contemporânea, a saber, Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900). Limitar não no sentido de empobrecer nosso artigo, mas para bem direcionarmos nosso pensamento. Também ressaltamos que não temos a pretensão de esgotar toda possibilidade de reflexão a respeito deste tema em Nietzsche.

Origem do niilismo

O niilismo como Nietzsche o entende é o processo de decadência dos valores supremos, isto é, ele é a consequência do pensamento socrático e da dicotomia entre os dois mundos estabelecida por Platão e pelo cristianismo.

O niilismo, segundo os escritos de Nietzsche terá seu auge na modernidade, “pois nela o niilismo se radicaliza e apresenta suas formas mais acabadas”[4]. O acontecimento fundamental que nos possibilita afirmar que na modernidade o niilismo se atualiza é a constatação da morte de Deus. Isto se tornará mais claro ao longo do artigo.

Sócrates ao definir o homem como ser racional, [5] possibilitou a racionalização da vida. Desconsiderando assim o homem trágico, o qual encarava a existência como constante vir–a–ser de forma à afirmá-la. Esse novo tipo de homem (racional), definido por Sócrates não suporta a existência, pois como sendo um ser zoon logikon, necessita sistematizar a vida, carece de um arché e de um telos pré-estabelecidos para que possa caminhar seguramente. No entanto, a existência não se deixa aprisionar por sistemas, uma vez que “sistematizar é querer regular dentro de esquemas a vida em movimento”[6].

Podemos dizer que o homem socrático não suporta a existência, porque esta como sendo constante vir-a-ser, carece de totalidade, de finalidade como nos afirma Nietzsche: (…) Com o vir-a-ser nada deve ser alvejado e de que sob todo o vir-a-ser não reina nenhuma grande unidade em que o indivíduo pode submergir totalmente como em um elemento de supremo valor”[7].

No cristianismo e em Platão nos será possível encontrar uma provável solução para este tipo de “ser humano que não suporta ou que não consegue viver no rio do devir”. Cria-se um outro mundo, ideal, perfeito estabelecendo assim a separação entre mundo ideal (verdadeiro) e mundo sensível (aparente). O mundo verdadeiro, ascético, será o sentido, o horizonte buscado pelo homem.

No entanto, esta dicotomia estabelecida por Platão e que o cristianismo irá retomar, tendeu a instaurar o niilismo negativo, que visa à desvalorização, negação da vida, em prol de um além-mundo. Instaura-se o vazio, ausência de sentido para aquele tipo de homem racional, enquanto ser imerso no mundo sensível, no ‘aparente’. Quanto a isso nos afirma Clademir Luíz Araldi: “O niilismo tem suas raízes na antiguidade (em Sócrates, Platão e no cristianismo), devido a uma doença da vontade que inventou o supra-sensível como um refúgio para sua incapacidade de viver”[8].

Modernidade, auge do niilismo

Como foi possível perceber a origem do niilismo está na dicotomia estabelecida entre o mundo supra-sensível e sensível. No entanto, o ápice desse fenômeno nós encontraremos no advento da modernidade[9]. Este período é caracterizado pelo esforço humano para “A substituição da autoridade de Deus e da Igreja pela autoridade do homem considerado como consciência ou razão; a substituição do desejo de eternidade pelos projetos de futuro, de progresso histórico; a substituição de uma beatitude celeste por um bem-estar terrestre”[10]. Enfim, os valores tradicionais metafísicos não são mais os referencias para o homem moderno.

É nesta situação que Nietzsche constata a morte de Deus. “(…) não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’ (…) ‘Para onde foi Deus?’ Gritou ele, já lhes direi! Nós o matamos. Você e eu somos todos seus assassinos! (…) Deus está morto (…)”[11].

Com a morte de Deus podemos dizer que se instaura uma forma mais radical de niilismo, uma vez que não há o mundo além para que o homem possa refugiar-se. Portanto (…) o niilismo encerra em si a descrença em um mundo metafísico. (…) Desse ponto de vista admite-se a realidade do vir-a-ser (…)[12], mas esta não é suportável pelo homem racional, por causa da sua necessidade de sistematização. Desta feita podemos concluir que Deus morreu e o homem não anda nada bem[13].

Considerações finais

Ao concluir este artigo, podemos dizer que nosso objetivo foi alcançado o qual era, a grosso modo, mostrar o niilismo como dissolução dos valores supremos. Neste sentido, podemos observar que toda a lógica do ocidente tendeu à falta de valores, que pudessem sistematizar a vida do homem, ou seja, com a ausência do absoluto os conceitos se tornaram instáveis.

Diante desta nossa reflexão, podemos ressaltar a afirmação de Nietzsche: “niilismo: falta-lhe a finalidade. Carece de respostas à pergunta para quê que significa o niilismo? Que os valores supremos se depreciaram. [14]

Já que não há valores para nos orientar, uma vez que os mesmos se dissolveram, nasce-nos uma questão: acaso estamos fadados à cair no caos eterno sem possibilidade de superação do niilismo? Esta nossa questão, que não deixa de ser pertinente, uma vez que estamos mergulhados em tantas crises, dentre as quais a do próprio pensar, poderá ser refletida em outras pesquisas futuras. Portanto este nosso artigo, deve ser compreendido como um puro lançar-se sobre a aventura do pensamento, mas sem a pretensão de alcançarmos alguma verdade que seja absoluta e que não possa ser problematizada.

Referências

ARALDI, Clademir Luíz. Para uma caracterização do niilismo na obra tardia de Nietzsche. In: Cadernos Nietzsche, São Paulo, 1998. p.75-94.

GOMES, Eliseu Donisete de Paiva. Uma leitura do niilismo nietzschiano como história do ocidente, In: Provocações: Ensaios filosóficos. Mariana: Dom Viçoso, 2004.

MACHADO, Roberto C. Zaratustra, Tragédia nietzschiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Sobre o Niilismo e o Eterno Retorno. 3ªed. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Coleção Os Pensadores)

_____. A Gaia Ciência. 2ªed. Trad. Paulo Cézar. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

_____. Vontade de Potência. Trad. Mário D. Ferreira Santos. Rio de Janeiro: Globo, 1945.

VATTIMO, Gianni. O Fim da Modernidade: Niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins fontes, 2004.

VOLPI, Franco. O Niilismo. Trad. Aldo Vannucchi. São Paulo: Loyola, 1999. (Coleção Leituras Filosóficas)


[1] Cf. GOMES, Uma leitura do Niilismo nietzschiano como História do Ocidente.

[2] VOLPI, Franco. O Niilismo. p. 7

[3] Cf. NIETZSCHE, F. Sobre o Niilismo e o Eterno Retorno. P. 379.

[4]ARALDI, Clademir Luís, Para a Caracterização do Niilismo na obra tardia de Nietzsche. P. 76.

[5] Cf. Compêndio das Monografias apresentadas ao Instituto Filosófico São José em 2004, GOMES, Eliseu Donisete de Paiva, Uma leitura do Niilismo nietzschiano com História do Ocidente. p. 239.

[6] NIETZSCHE, F. Vontade de Potência, p. 31.

[7] NIETZSCHE, F. Sobre o Niilismo e o Eterno Retorno, § 12. p. 381.

[8] ARALDI, Clademir Luís, Para a Caracterização do Niilismo na obra tardia de Nietzsche. P. 76.

[9] IDEM. CF. P. 87.

[10] MACHADO, R. Zaratustra, Tragédia nietzschiana, p. 47. Eliseu

[11] NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. § 125

[12] NIETZSCHE, F. Sobre o Niilismo e o Eterno Retorno. § 12.

[13] CF. GIANNI, Vattimo. O Fim da Modernidade: Niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. p. 17.

[14] VOLPI, Franco. O Niilismo. Apud: NIETZSCHE, F. p. 8.

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Um comentário

  1. José Márcio

    Salve! Salve! Juliano! Li atentamente seu artigo, refletindo cada linha, ja que faz parte da linha de reflexão também da minha monografia… Achei interessante sua reflexão, bem organizado… mas só achei que vc deixou o texto um pouco truncado, poderia ter escrito mais, desenvolvido um pouco mais, sobretudo sobre a morte de Deus, visto que ela é a essência do título do seu artigo…. mas valeu o esforço… continue firme…

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