A existência de Deus na perspectiva de Voltaire

João Paulo Rodrigues Pereira

O homem é um ser caracterizado por grandes capacidades intelectuais e práticas, mas, em sua finitude, é concomitantemente um ser frágil que se encontra em meio a grandes forças externas, como a natureza e a sociedade, e forças internas, como os instintos e as paixões. Por causa de sua fragilidade, inquieta-se com o sentido de sua existência e sempre se pergunta qual o sentido de seu nascimento, de sua morte, da angústia, do medo, do sofrimento e do desespero. Diante disso, busca algo que lhe traga esperança, algo que lhe dê segurança e sentido para a vida, encontrando assim respostas na aceitação de um ser superior a ele, um ser perfeito e eterno, que é “Deus”.

Porém Deus não é um ser material, tangível, do qual facilmente se constate a existência. Por isso, sua existência foi e é uma questão muito discutida, principalmente no âmbito da filosofia. Vários filósofos escreveram sobre este tema e tentaram argumentar sobre a existência de Deus. Assim, será tratado neste artigo, especificamente, a perspectiva de Voltaire.

Voltaire (1694-1778) foi um filósofo francês iluminista considerado “deísta”1 (embora o próprio Voltaire use o termo teísmo para designar sua concepção de Deus). Acredita que Deus se manifesta ao homem não pela revelação histórica como a tradição judaico-cristã, mas através da razão, de modo que, negar a existência de Deus seria um absurdo, pois segundo ele: “Deus existe como a coisa mais verossímil que os homens podem pensar e a proposição contrária como uma das mais absurdas” (VOLTAIRE, 1978b, p.68).

No entanto, o filósofo em questão tem uma visão cética em relação à metafísica, pois a razão humana não é capaz de conhecer a natureza divina e a realidade transcendente. Ao contrário da presunção da antiga metafísica, que se gabava de tudo conhecer, Voltaire evita o conhecimento que supera o limite da natureza humana, porque segundo ele: “a verdadeira filosofia consiste em saber deter-se no ponto exato e nunca continuar sem um guia seguro” (ROVIGHI, 1999, p.355). Isto é, não existe um guia seguro para a metafísica, justamente por causa da insuficiência da razão em relação à realidade supra-sensível. .

Contudo, Voltaire acreditava numa certa ordem inerente à natureza. Uma prova desta ordem inerente é o fim com que cada coisa se relaciona, pois este fim comprova que existe uma função para cada coisa no universo, conforme se segue: “Não há arranjo sem objeto, nem efeito sem causa; logo tudo é igualmente o resultado, o produto de uma causa final; logo, é tão verdadeiro dizer que os narizes foram feitos para trazer lunetas, como é verdadeiro dizer que as orelhas foram formadas para ouvir os sons e os olhos para receberem a luz”. (VOLTAIRE, 1978a, p.191).

Deste modo, a partir da ordem inerente da natureza, Voltaire deduz duas provas da existência de Deus, as quais segundo ele resumiriam todas as outras provas e também todos os outros escritos sobre esta questão. Sendo assim, o primeiro argumento a ser considerado é exatamente esta ordem do universo, mas não só ela, como também o fim com que cada coisa se relaciona:

Quando vejo um relógio cujo ponteiro marca as horas, disso concluo que um ser inteligente montou as engrenagens desta máquina para que o ponteiro marque as horas. Assim quando considero as engrenagens do corpo humano, concluo que um ser inteligente montou os órgãos para serem recebidos e nutridos por nove meses na matriz: que os olhos nos são dados para ver, às mãos para segurar, e assim por diante. (VOLTAIRE, 1978b, p.63).

Por esse motivo, para Voltaire, como para Newton, Deus é o grande engenheiro ou mecânico que idealizou, criou e regulou o sistema do mundo (REALE, 2005, p.257), ou seja, se existe uma ordem no universo é porque alguém ordenou, e o relógio é uma prova inegável da existência do relojoeiro, assim como o mundo é uma prova evidente da existência de um Criador Supremo que é Deus. “Se Deus não existisse seria preciso inventá-lo, porém a natureza proclama a sua existência”. (REALE, 2005, p.257).

O segundo argumento a ser considerado é mais metafísico, partindo assim, do pressuposto da necessidade da existência de um Ser que exista necessariamente e seja eterno, pois se existe uma coisa ou existe eternamente ou foi criado por um Ser eterno que existe por si mesmo.

Existo, portanto alguma coisa existe. Se algo existe, existiu desde toda eternidade, pois aquilo que é, ou é por si mesmo ou recebeu seu ser de outro. Se é por si mesmo, é necessariamente, sempre foi necessariamente e é Deus. Se recebeu o ser de outro, e este seu ser de um terceiro, aquele de quem este último recebeu seu ser deve ser necessariamente Deus, pois não podeis conceber um ser que dê o ser a um outro se não tiver o poder de criar. (VOLTAIRE, 1978b, p.64)

Neste argumento a existência de Deus é provada pelo fato de ter que existir um Ser que exista necessariamente por si mesmo. Pois se existe algo, existe necessariamente por si mesmo desde toda eternidade ou seu ser deriva de um outro ser que existe desde toda eternidade sendo o seu ser a origem de todos os outros seres. Logo, este ser necessário que existe por si mesmo é Deus. E por fim, basta agora examinar, segundo a reflexão de Voltaire, se o mundo material é este Ser necessário que existe por si mesmo e que é a origem dos outros seres que não são necessários.

Se este mundo material existisse por si mesmo de modo absolutamente necessário, seria contraditório pensar que a mínima parte dela poderia ser diferente de como é, pois, se o seu ser neste momento é absolutamente necessário, isso é suficiente para excluir qualquer outra maneira de ser. Ora está fora de dúvida que esta mesa sobre a qual escrevo, esta pena de que me sirvo, não foram sempre aquilo que são; estes pensamentos que traço sobre esta folha um momento antes nem sequer existiam, e não existem de modo necessário. Ora, se cada parte não existe com absoluta necessidade, é impossível que o todo exista por si mesmo. Eu produzo movimento; portanto um movimento antes não existia; portanto, não é essencial a matéria; portanto ela o recebe de outro; portanto, há um Deus que o comunica a ela. (REALE, ,2005 p.73.)

Desta forma, se a matéria existisse como uma necessidade absoluta, todas as partes dela deveriam existir necessariamente. Porém, as partes não existem necessariamente, pois uma mesa nem sempre foi uma mesa e uma caneta nem sempre foi uma caneta. Sendo assim, se as partes não existem necessariamente, o todo também não existe necessariamente. Logo, a matéria não existe necessariamente e não é Deus. Pois como se percebeu, Deus é um ser que existe necessariamente por si mesmo.

Portanto, fica claro no pensamento de Voltaire que Deus se revela aos homens por meio de sua razão, no entanto esta mesma razão não é capaz de conhecer a realidade transcendente. E a existência de Deus é algo inegável, pois a natureza proclama sua existência, ou seja, as provas de sua existência são tiradas da ordem inerente que existe na natureza e esta ordem se dá pelo fim com que cada coisa se relaciona no universo.

Referências

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes. 2000.

REALE, Giovanni. História da Filosofia: de Spinoza a Kant. São Paulo: Paulus, 2005.

ROVIGHI, Sofia Vanni. História da Filosofia Moderna: da revolução científica a Hegel. São Paulo: Loyola, 1999.

VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. 2. ed. São Paulo: Abril cultural, 1978a. (Os Pensadores)

VOLTAIRE. Tratado de Metafísica. 2. ed. São Paulo: Abril cultural, 1978b. (Os Pensadores)

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[1] “Deísmo – Doutrina de uma religião natural ou racional não fundada na revelação histórica, mas na manifestação natural da divindade à razão do homem. O D. é um aspecto do iluminismo (v.), de que faz parte integrante.(…) O D. difundiu-se fora da Inglaterra como elemento do iluminismo: são deístas quase todos os iluministas franceses , alemães e italianos. Nem todos, porém, usam a palavra D. para designar sua crenças religiosas: Voltaire, p. ex., usa a palavra ‘teísmo’. (…) Nota-se, porém, que em relação ao conceito de Deus nem todos os deístas estavam de acordo. Enquanto os deístas ingleses atribuíam a Deus não só o governo do mundo (a garantia da ordem do mundo), mas também o do mundo moral, os deístas franceses, a começar por Voltaire, negam que Deus se ocupe dos homens e lhe atribuem a mais radical indiferença quanto a seu destino.” (ABBAGNANO, 2000, p. 238). Voltaire usa a palavra teísmo com o mesmo significado do deísmo para os demais iluministas, “afirmando que Deus governa o mundo e na retribuição do mal e do bem na vida futura. Porém , quanto à concepção de Deus nem todos os deístas comungam da mesma idéia. Enquanto os deístas ingleses atribuem a Deus o governo do mundo físico e do mundo moral, os deístas franceses, a começar por Voltaire, negam o governo do mundo moral (…), por isso, ele acredita que a historia é uma questão dos homens, inclusive o mal”(REALE, 2005, p. 257).

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  1. Maurício de Assis Reis

    Quanto ao texto, diria que foi muito bem escrito. Quanto às ideias aí expostas, diria que a metafísica de Voltaire me deixa dúvidas.
    Sua filosofia está localizada num contexto moderno que confia extremamente na razão. O caminho parece ser o que Kant dirá mais tarde, ao deixar fora da especulação racional aquilo que não pode ser conhecido, como no caso de Deus. Quando dizemos que “a natureza proclama sua existência”, remete a algo, a meu ver, mais poético que propriamente metafísico, e não corresponde a uma filosofia que se funda numa racionalidade que confia extremamente no dado material. Com isso, Deus assumiria uma perspectiva um tanto “maquinária”, simplesmente servindo para emular a máquina da natureza com todos os elementos aí implicados. Com um Deus maquinário e se pensarmos em sentido para a vida, estaria esta submetida aos caminhos racionalmente preparados, ou haveria ainda liberdade para as forças internas lembradas no início do texto, os instintos e paixões?

  2. João Paulo Rodrigues Pereira

    Maurício agradeço pela crítica, foi muito pertinente.
    Quanto a relação que fez de Voltaire com Kant, me parece que neste ponto os dois se assemelham, pois para Voltaire todo conhecimento seria utopia a não ser o conhecimento resultante da observação. Assim, não se pode conhecer a Deus, mas através da observação da realidade física se constata a sua existência. Quanto à frase “a natureza proclama sua existência”, realmente parece poético, mas a meu ver, isto não anularia a filosofia racionalista que se funda nos dados matérias, uma vez que, é dá observação da natureza que Voltaire deduz a existência de Deus e por isso nega-lo seria um absurdo, pois a própria natureza aponta para esta existência. Quanto ao Deus maquinário, esta é a concepção de Voltaire. Para ele Deus criou a ordem do universo, mas a história concerni aos homens. Neste sentido sobraria espaço para esta liberdade das forças que cercam o homem.
    Por fim, penso que mesmo existindo um Deus maquinário, que não se envolvesse com a história dos homens, ainda sim haveria um sentido para vida, simplesmente pelo fato de existir um principio criador e saber que existe algo que ultrapassa a realidade física daria um sentido para a vida do homem, dando segurança para ele diante de sua finitude e das forças que o cerca.

  3. Maurício de Assis Reis

    Caro João Paulo, estou gostando do diálogo. Que tal continuarmos a debater a filosofia de Voltaire. É preciso dizer que não conheço os textos dele, por isso apenas faço observações sobre o pensamento que você expõe do autor.
    Primeiramente, voltaria ao contexto da filosofia moderna. Marcado por uma confiança nas potencialidades da razão, tal contexto herda da filosofia cartesiana o método construído de forma racional.
    Diante disso, faria uma observação no forma da observação de Deus na natureza. A verdade aqui estaria intimamente relacionada aos procedimentos metodológicos da razão, de forma a encontrar, sem saltos, a certeza da existência de qualquer objeto. Ora, Deus não é fruto da certeza, mas da dedução a partir da natureza e da sua forma de ser.
    Depois, diante da afirmação dedutiva da existência de Deus, existem outras observações quanto às ideias de Voltaire. Se há um Deus criador, “a natureza proclama sua existência”. Se o Deus em questão é maquinário, ordenador do universo, suas criações devem segui-lo como a um ideal. A busca pelo sentido da vida, desta forma, não deveria possuir existência, uma vez a maquinaria da natureza já o deveria determinar. As crises da humanidade se tornariam falhas nas engrenagens e os homens que fossem influenciados por seus instintos e paixões estariam num nível abaixo daqueles que regem suas vidas a partir do sentido anteriormente dado.

  4. Edivan Guimaraes

    Compartilho do pensamento deste grande filósofo francês qdo. diz que:

    ” Deus se manifesta ao homem não pela revelação histórica como a tradição judaico-cristã, mas através da razão, de modo que, negar a existência de Deus seria um absurdo, pois segundo ele: “Deus existe como a coisa mais verossímil que os homens podem pensar e a proposição contrária como uma das mais absurdas” (VOLTAIRE, 1978b, p.68).”

  5. João Paulo

    Valeu Edivam pelo seu comentário. É bom saber que existe pessoas que compartilham do pensamento de Voltaire, principalmente por causa do tema e da forma que ele trata o mesmo.

  6. Ele ainda sofria o dilema das trevas da idade média.ou seja, a morte de mitos é um processo, hoje, Deus é só uma ilusão de fanáticos

  7. Alexandre Viana

    Vejo que o assunto já e por demais antigo aqui, creio que por isso meu comentário só servirá para próximos leitores e não para o João, autor deste belíssimo texto, e o Maurício que trouxe contra pontos interessantes. Mesmo assim gostaria de tecer algo de forma muito breve.
    Voltaire foi um grande filósofo sem dúvida, sua afirmação de: Se Deus não existisse teríamos que inventá-lo. É ótima e revela a máximo cristã de que: O homem tem um buraco no seu ser que só pode ser preenchido por Deus. (Não disse do tamanho Dele para não ofender a minha compreensão de que Deus é imensurável).
    Além disso outra contribuição aos cristãos dada por este grande filósofo, foi mostrar de forma ainda mais racional, em outro momento da história, aquilo que Tomas de Aquino já traçara tempos antes, falo das engrenagens, e comprovar o que homens ainda mais antigos, como o Ap. Paulo já haviam dito: Deus se revela através da natureza.
    É bem verdade que alguns, como o querido e sucinto Cláudio, irão se estribar nos avanços desta sociedade que a cada dia se distância mais de Deus, negando, contra o seu próprio entendimento natural, a existência deste ser, para ressaltar: A morte dos mitos! Esquecendo de observar que este “mito” nunca impediu os avanços da sociedade, mas a atual sociedade que se gaba da “morte dos mitos” tem a cada dia afundado mais e mais no caos, na violência, na falta de perspetiva… enfim. Sendo assim o que posso eu acrescentar?
    Apenas que mesmo a natureza revelando a existência de Deus, o mero fato se saber que ele existe se resume em nada quando o vemos como um mero mantenedor da ordem do universo ou como o também citado Kant: algo de que não se pode conhecer.
    Deus se revela sim a nossa razão através da natureza, mais não só um mantenedor da ordem do universo, é também um Deus pessoal, ou seja, que lida com os que o buscam em espírito e em verdade. Que não simplismente criou o homem mais está atento e atuante a respeito do que criou e por isso o vemos na história deste planeta e consequentemente na história dos que o compõe.

    Obrigado pelo espaço fiquem com Deus

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