Os modos de ser do “Dasein” a partir da analítica existencial heideggeriana

Luciano da Silva Roberto

 

Ao estudar a filosofia de Martin Heidegger (1889-1976), a partir de sua obra Ser e Tempo, percebe-se que seu pensamento se situa no centro das preocupações filosóficas da atualidade. Ele propõe a superação da tradição filosófica do Ocidente através da retomada da pergunta pelo sentido do ser, a qual é a mais fundamental de todas as perguntas. Para tanto, Heidegger afirma que o único ente diverso dentre os outros existentes, o Dasein (ser-aí), seria o único capaz de compreender o ente diverso dele. Assim, com este trabalho pretende-se fazer uma análise dos modos de ser do Dasein.

Heidegger utiliza o método fenomenológico para a compreensão do ser, sendo que, em primeiro momento, tal método recorre ao Dasein. O seu objeto de analise existencial é o Dasein. A sua preocupação central é pensar o ser. O fundamental, para ele, é compreender o sentido do ser entrevendo as condições de possibilidade de todos os entes e sobretudo do Dasein. O “objeto” utilizado por Heidegger em suas pesquisas visa mostrar, de modo mais radical, o quanto esse ente precisa, além da compreensão do ser, obter uma noção original de seu ser.

Diante disso, surge a pergunta: quem é o Dasein? Ele é o ser-aí, o eis-aí-ser. O termo “Dasein” serviu para designar a manifestação do ser enquanto ente. O Dasein se compreende a si mesmo enquanto ser que existe. Segundo Heidegger, a substância do Dasein é a existência e não o espírito enquanto síntese de corpo e alma. O Dasein não pode ser caracterizado fora da existência. Ele é seu compreender-se e seu projetar-se. O Dasein enquanto substância, ou seja, na sua existencialidade ou substancialidade é um ainda-não, que se lançando na existência reside na não totalidade, no vazio, no nada. A existência é a sua essência.

O Dasein é um “poder-ser” sempre, a existência do Dasein nunca é algo já feito. O Dasein permanece sempre em construção, pois é projeto para o seu futuro. Ele é um ser que busca planejar, pois sabe que não está pronto. Está sempre inacabado e diante de inúmeras possibilidades. O verdadeiro ser consiste em objetivar aquilo que ainda não é. O Dasein, como ente, é um ainda-não, que deve ser assumido por ele, que lançado na existência reside na não-totalidade.

O Dasein fornece o horizonte de compreensão do sentido ser a partir da temporalidade. A partir da temporalidade podemos falar das estruturas fundamentais do ser do Dasein. O Dasein tem o caráter estrutural de ser-no-mundo, ser-com-os-outros e ser-para-a-morte.

O Dasein é ser-no-mundo e o ser dos entes é compreendido dentro do mundo. O ser-no-mundo é uma forma privilegiada do Dasein, pois a partir deste modo é possível determinar seu ser, não de maneira total. Ser-no-mundo é revelar-se, é manifestação como fenômeno do Dasein.  O ser do ente que o Dasein é, só se manifesta por si mesmo dentro do mundo. Não há uma compreensão de ser-no-mundo como se a existência do Dasein estivesse de um lado e o mundo doutro lado. Mundo é lugar onde os entes se dão, da mesma forma o ser nos entes, a natureza, as coisas dotadas de valor. O mundo é o contexto em que de fato um Dasein vive como Dasein. Lançado-no-mundo, se entrega às ocupações, como modo de ser-no-mundo.

O Dasein é ser-junto-a, junto aos entes. Heidegger chama os entes que são usados e protegidos de instrumentos, pois os instrumentos são produzidos de matéria, que não carecem de produção, pois a própria natureza se encarrega de fazê-las, por alguém, para alguém (HEIDEGGER, Ser e Tempo, p.109). Dasein é é produção, é criação e transformação do mundo. O Dasein está no mundo e totalmente envolvido por ele. Sem o mundo não se pode pensá-lo.

O Dasein partilha com os outros o espaço que lhe circunda. Em sua ocupação ele se encontra a si mesmo e aos outros. Sem o outro de nada adianta existir. Ser lançado no mundo possibilita ao Dasein mergulhar na aventura da partilha deste mundo com os outros. O Dasein é com os outros. O Dasein como ser-com-os-outros: estando lançado-no-mundo, o Dasein mantém uma interação consigo mesmo, com os demais entes (todas as coisas) e com o mundo.

O Dasein partilha com os outros o espaço que circunda. Em sua ocupação ele se encontra a si mesmo e aos outros. De fato, nesta possibilidade de ser-com-os-outros, “o estar-só do Dasein é ser-com no mundo (…). O próprio Dasein só é na medida em que possui a estrutura  essencial de ser-com, enquanto co-Dasein que vem ao encontro dos outros. (Ser e Tempo, p.171)

Os outros não significam todo o resto dos demais além de mim, do qual o eu se isolaria. Os outros, ao contrário, são aqueles dos quais, na maior parte das vezes, ninguém se diferencia propriamente entre os quais também se está. (Ser e Tempo, p.169)

O outro sempre é percebido, pois estando no mundo produz algo, ele o realiza para alguém, e quando utiliza um objeto, utiliza porque alguém o produziu. Os objetos no mundo sempre nos remetem a outros. O Dasein vive neste mundo, mas não vive só, está sempre se relacionando com o outro

O Dasein está neste mundo, convive com os outros, se relaciona com os outros Dasein, mas também caminha para a morte. Ele não é um ser pronto (total), acabado, definido. Dasein é um ser-para-a-morte:

Antes de anular o problema de totalidade do Dasein, deve-se buscar as respostas reclamadas a essas questões. A questão sobre a totalidade do Dasein que, do ponto de vista existenciário, emerge com a questão da possibilidade dele poder-ser-todo e, do ponto de vista existencial, como a questão da constituição ontológica e a “totalidade”, abriga a tarefa de uma análise positiva dos fenômenos da existência até aqui postergados. No centro dessas considerações, acha-se a caracterização ontológica do ser-para-o-fim em sentido próprio do Dasein e a conquista de um conceito existencial da morte. (Ser e Tempo, p.17)

De acordo com o modo do Dasein, a morte só é em um ser existencial. O verdadeiro caminho a seguir em direção ao ser é o de desvendar a existência autêntica do Dasein. Tal tarefa tem como centro a angústia. Diante da possibilidade da morte, o Dasein vive a angústia. Sendo ele determinado pela essência como ser que existe, caminha em direção da morte. Começa a morrer desde o dia que nasce. A morte é a possibilidade mais própria, pois diz respeito à essência da existência, ou seja, o poder-ser. Ninguém pode assumir a morte do outro. Ela é ainda a possibilidade da impossibilidade.

Interpretando-se as características do Dasein descritas por Heidegger, é buscando-se uma aproximação de sua ontologia com a antropologia, pode-se compreender quem é o homem. A relação do homem com os homens é diferente da relação com as coisas. Em sua relação com os outros homens, ele é interpelado a abrir-se, sair e provocar encontro. Na relação com as coisas, o homem simplesmente faz uso do que se encontra disposto no mundo das ocupações. A existência do homem só pode ser considerada quando também se considera que o homem é em um mundo. Sem a mundaneidade não pode existir homem. O homem só pode ser compreendido lançado neste com o qual está envolvido, o mundo. Nele o homem toma consciência de sua existência. Realiza os seus projetos, cria utensílios para tornar a vida mais cômoda, lança-se em encontros com o outro, fazendo acontecer a convivência. O homem necessita da presença do outro para viver. A convivência com o outro tem o papel muito importante na vida do homem, pois é através dela que o homem se humaniza.

Diante do que foi estudado, resta afirmar que Heidegger foi muito original em seu pensamento. Heidegger em seu pensamento não tematiza o ser, pois senão estaria objetivando o ser. Falando sobre o Dasein, Heidegger pretendeu falar do verdadeiro sentido do ser. O Dasein é o ente que se pergunta pelo próprio ser, só ele compreende os demais entes e somente ele tem a capacidade de fazer a pergunta pelo sentido do ser.

 

Referências

HEIDEGGER, M. Ser e Tempo: parte II. 2ªed. Trad. Márcia de Sá Cavalcanti. Parte II Petrópolis: Vozes, 1998.

NOBRE, Rui José. O ente que pensa o ser: elementos para a compreensão do Dasein heideggeriano. Mariana: Instituto de filosofia São José, 2003. (TCC em Filosofia)

OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, A filosofia na crise da modernidade. São Paulo: Loyola, 1989.

REALE, Giovanni.; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: vol. III. São Paulo: Paulinas, 1991.

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